Ignácio Bittencourt

( Colaboração de João Marcos Weguelin)

Há 55 anos partia para a Pátria Espiritual, octogenário, o maior expoente do Espiritismo carioca neste século: Ignácio Bittencourt. Nascido a 19 de abril de 1862, na Ilha Terceira, Arquipélago de Açores, Freguesia de Sé de Angra do Heroísmo (Portugal), Inácio deixou a sua terra natal e aos treze anos de idade passara a viver no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até o fim de sua vida terrena.

Sete anos depois de aportar na capital brasileira, Ignácio conheceu o Espiritismo quando ficou muito enfermo e bastante desesperançado. Foi com um médium chamado Cordeiro, residente na rua da Misericórdia, que ele conseguiu ficar com a sua saúde totalmente restabelecida. Espantado com o acontecido, pelo fato do médium não ser médico, não ter indagado quais eram os seus padecimentos ou ter sequer lhe tocado, Ignácio buscou explicações, para as quais recebeu imediata resposta: "Leia O Evangelho Segundo O Espiritismo e O Livro dos Espíritos. Medite bastante e neles encontrará a resposta para a sua indagação."

Ignácio assim o fez, abraçando o Espiritismo e entrando para a Federação Espírita Brasileira, à época que seu Presidente ainda era o Dr. Bezerra de Menezes. Então brilhou como poucos: seja, como médium receitista e curador, na sua própria residência; seja no alto das tribunas doutrinárias da FEB. Só não se sabe se ele era tão competente como barbeiro, que era o seu ganha-pão. A profissão humilde e o pouco estudo - deixou os bancos escolares aos dez anos - jamais interferiram no seu trabalho doutrinário.

As descrições desse seareiro do bem em ação impressionam. Uma delas foi a que o Reformador publicou em março de 1943, um mês após o seu falecimento: "Era então de causar pasmo, e pasmo geral, ouvi-lo, a ele, que não lograra dispor de ampla cultura intelectual discorrer de maneira fluente, até com eloquência muitas vezes, sobre o ponto em estudo, proferindo discursos ricos de belas imagens e de conceitos profundos, que seriam de impressionar e abalar os ouvintes, mesmo quando enunciados por mentalidades de vasta erudição científicas e filosóficas".

Neste mesmo número do Reformador encontramos outra descrição: "E as curas, por seu intermédio, se multiplicavam, assumindo não poucas o caráter de assombrosas. Inúmeras vezes, considerado perdido o caso, um apelo a Ignácio Bittencourt era o recurso extremo e a volta da saúde ao enfermo se verificava, com espanto dos que ansiavam, porém já descriam do seu restabelecimento, operando-se, em conseqüência e em muitíssimas ocasiões, surpreendentes conversões ao Espiritismo".

Sobre esse assunto - o estudo e a cultura - escreveu o confrade Paulo Alves Godoy, no livro "Grandes Vultos do Espiritismo": "Não foi somente como médium receitista e curador que Ignácio Bittencourt grangeou a notoriedade, a estima e a admiração de todos, mas igualmente como médium apto a receber do Alto inspiração que, durante larga fase do seu mediunato, se manifestou notória e admirável, sempre que ele assomava às tribunas doutrinárias, principalmente à da Federação Espírita Brasileira, a cujas sessões de estudos comparecia com bastante assiduidade. Embora não fosse dotado de cultura acadêmica, escrevia artigos doutrinários de forma surpreendente, e fazia uso da palavra em auditórios espíritas de forma bastante eloqüente. O simples fato de dirigir um jornal de grande penetração como o foi "Aurora", demonstra a fibra e o valor desse seareiro incomparável e incansável."

Nesse mesmo livro, Paulo Alves Godoy, aponta outras realizações de Ignácio Bittencourt. Além das já citadas, Inácio fundou, juntamente com Samuel Caldas e Viana de Carvalho, o Centro Cáritas, presidindo-o até a data de sua desencarnação. Teve parte ativa na fundação da União Espírita Suburbana. E, ainda segundo o confrade e autor, "durante alguns anos exerceu também a Vice-Presidência da Federação Espírita Brasileira: presidindo também o Centro Humildade e Fé, onde nasceu a Tribuna Espírita, por ele dirigida durante anos.

Também Zêus Wantuil escreveu sobre Ignácio Bittencourt, no livro Grandes Espíritas do Brasil: "Forte na fé, valoroso na humildade, impertérrito na caridade, tal se revelou constantemente este velho companheiro de lides espiritualistas e amigo muito benquisto." E mais adiante: "Apreciando em seu justo valor esse dom e em sua legítima significação, consciente da responsabilidade imensa com que lhe onerava o Espírito, exerceu-o o saudoso lidador como verdadeiro sacerdócio, disposto a todos os sacrifícios que lhe adviessem da necessidade de dar cumprimento ao dever, que a sua consciência cristã lhe impunha, ante o lema da doutrina a que servia com inteiro devotamento e abnegação: "Sem Caridade, não há salvação"."

Para a Revista Internacional do Espiritismo, de 15 de março de 1943, Ignácio Bittencourt era "um dos mais devotados trabalhadores da seara cristã, cujos exemplos de caridade, perseverança, tenacidade e humildade constituem uma bússola para todos quantos porfiam por entrar no reino de Deus, em demanda dos seus gloriosos destinos". (...) "Ao correr a notícia do seu passamento, começou a romaria à residência desse Apóstolo do Espiritismo. Ricos e pobres, pretos e brancos, altas personalidades, intelectuais e os espíritas em geral, foram, pela derradeira vez, contemplar o corpo daquele justo, numa demonstração de solidariedade à família desolada, num culto de estima, amor e consideração. Cremos que nenhum espírita, como nós, desconhece a atuação de Ignacio Bittencourt na Doutrina. O seu trabalho se desenvolveu sem tréguas e, animado por aquela fé característica dos grandes missionários do Bem e da Verdade, ele traçou e cumpriu à risca um programa que constituiu o principal objeto de suas nobres e cristãs aspirações: pregar a doutrina evangelicamente não só por palavras como principalmente por obras."

Mais outro trecho interessante, ainda na mesma Revista: "Estudando, pregando e praticando a Doutrina, Ignacio Bittencourt, em pouco tempo, tornou-se um dos oradores mais apreciados, dedicando-se, com especialidade, à pregação do Evangelho, não só na Capital Federal, como no interior do País. Era médium inspirado e receitista. Como médium receitista, conquistou tal popularidade em todo o País pelas curas operadas, que atendia, diariamente, em seu modesto consultório, à Rua Voluntário da Pátria 20, entre 500 e 600 pessoas". Acrescenta ainda a matéria: "Ao tempo em que Leopoldo Cirne, outro Apóstolo do Espiritismo, era presidente da Federação Espírita Brasileira, Ignacio Bittencourt exercia, nessa entidade, o cargo de vice-presidente e estava sempre em contato com os luminares do Espiritismo dessa época, Bezerra de Menezes, Sayão, Bittencourt Sampaio, etc. Dando cumprimento ao seu programa de ação no campo da Doutrina, Ignacio Bittencourt fundou em 1919, o Abrigo Teresa de Jesus, destinado a abrigar a infância desválida. Como presidente perpétuo dessa instituição, dirigiu-a até os seus últimos momentos de vida terrena. Fundou, há trinta anos, o "Aurora", que é um dos baluartes da imprensa espírita, com ampla circulação por todo o país." E, ao final da longa matéria, diz que Ignácio Bittencourt foi "amigo dos humildes, amparo dos necessitados, médico da alma e do corpo e paladino das verdades crísticas".

E não eram só os órgãos ou os livros espíritas que enalteciam a personalidade desse grande benfeitor. O Correio da Manhã , de 19 de fevereiro de 1943 escreveu, por ocasião de seu falecimento: "Os que professam a doutrina de Kardec diziam haver na sua personalidade um médium de extraordinários dons. Era curador. Fazia diagnósticos como se fosse médico e dava receitas, em geral pelo sistema de Hahnemann, com o que foi ganhando fama, através das curas que ia realizando. Mas o mais curioso, o que atraia para Ignácio Bittencourt as simpatias gerais, era a sua caridade, o seu devotamento ao próximo. Em cima de sua barbearia, ficava a residência do dono. Os doentes subiam uma pequena escada e entravam para a sala de visitas - muito modesta, bem pobre, de móveis baratos e comuns. O espírita chegava e apenas indagava o nome, a idade e a profissão do candidato a consulta. Às vezes, nem isso. Ignácio Bittencourt sentava-se a uma mesa, concentrava-se e escrevia a lápis uma receita. Dentro de poucos minutos, dava consultas a cinco, dez, vinte pessoas. Todo o dia se passava assim. À noite, havia o mesmo movimento. Nunca aceitou remuneração em dinheiro, ao menos para si."

Descoberta inédita é uma matéria do imortal e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregesilo de Athayde, estampada com destaque na primeira página do "Diário da Noite", de 19 de fevereiro de 1943, e que comunicava a morte do nosso benfeitor. O título da matéria era: "A Morte do Apóstolo". Eis o texto na íntegra: "Seja qual for o ponto de vista religioso em que nos coloquemos, a figura de Ignácio Bittencourt, ontem, sepultado, adquire inconfundíveis relevos de apóstolo cristão. Era o patriarca do Espiritismo, seu propagandista incansável e devotado sacerdote. Pregava pelo jornal, pela palavra nas reuniões do culto, pelo exemplo de uma vida sem mácula de interesse, no cumprimento estrito dos deveres vocacionais. Foi um santo. Milhares de pessoas levaram-no à beira do túmulo, testemunhando-lhe o agradecimento da pobreza. Para ele o que principalmente ligava o homem a Deus era o espírito de Caridade. O Cristo era o amor do próximo. Não havia sacrifício que não fizesse para servir os seus irmãos, nas tristes condições da humildade. Não sei se curava. Não sei se como médium conversava com os espíritos. Sei, no entanto, que foi um grande consolador de sofrimentos e nunca ninguém se aproximou dele que não saísse aliviado das suas penas morais. Assim cumpriu a missão sagrada do pastor e Deus, na sua misericórdia, tê-lo-á recebido com as dignidades reservadas aos seus justos."

O jornal "A Noite", que deu a notícia do falecimento de Ignácio Bittencourt em primeira mão (no próprio dia 18 de fevereiro) escreveu: "Modesto como sempre foi, não vendo a felicidade nos bens terrenos, como soi acontecer entre os viventes em geral, Ignácio Bittencourt era homem que tinha as vistas voltadas para o alto. Compreendia em toda a sua extensão a vaidade humana e daí o seu último pedido, o seu último desejo - um enterro de última classe. Não obstante, inúmeras coroas enchem o pequeno jardim da residência da família do saudoso extinto."

Assim o "Jornal do Commercio" escreveu sobre o grande benfeitor: "No sobejamente conhecido na nossa Capital, o morto de ontem, tornou-se um elemento de projeção pelo seu espírito de bondade e desprendimento pelos laços materiais, só se importando com os benefícios que podia prestar aos que dele se acercavam, sem distinção, de classes, fortuna ou posições sociais. Foi um homem que viveu acolhendo os pobres, servindo aos ricos, mitigando dores, levando esperanças aos enfermos e confortando muitos outros às portas da morte."

Nessa enorme matéria do "Jornal do Commercio" há outro trecho que merece destaque. Depois de afirmar que Ignácio Bittencourt atendera aos doentes até o final de sua vida, o jornal escreve: "Há cinco anos sofreu um derrame cerebral, ficando parcialmente paralítico e cego de um dos olhos. Com os seus próprios recursos venceu a grave crise. Há dois anos, entretanto, seu estado de saúde sofreu uma grande queda, e ele conseguiu manter-se entre alternativas de melhoras e pioras até a manhã de ontem quando foi fulminado por um colapso cardíaco."

Também o Jornal do Brasil se manifestou da mesma maneira em relação ao nosso benfeitor, considerando-o "uma das individualidades mais populares em todos os círculos sociais, que lhe admiravam o ardente espírito de caridade, o devotamento de todos quantos o procuravam e nele encontravam uma palavra de conforto moral, um gesto de alívio ao sofrimento".

Outro jornal que registrou o falecimento de Ignácio Bittencourt foi o Diário de Notícias, que num trecho escreveu: "Foi fundador da Federação Espírita Brasileira, do Abrigo Teresa de Jesus, da Legião do Bem, instituições de assistência aos necessitados. Fundou, também, há cerca de 30 anos, o jornal "Aurora", que ainda circula como órgão da doutrina de Allan Kardec. O Sr. Ignácio Bittencourt, que faleceu aos 80 anos, era português de nascimento e brasileiro naturalizado, tendo chegado ao Brasil com a idade de 12 anos".

A primeira informação do trecho acima não é verdade: Ignácio Bittencourt não fundou a Federação Espírita Brasileira. O Reformador de março de 1943 tratou de corrigir esse equívoco do diário carioca. E mais O Jornal escreveu sobre Ignácio Bittencourt, dizendo que o nosso benfeitor era um "nome largamente conhecido através da atuação que, durante muitos anos exerceu nos domínios da teoria espírita". "Português de nascimento, veio para o Brasil havia mais de 60 anos, dedicando-se a princípio ao comércio, para depois, conhecedor profundo da doutrina que abraçara, se tornar um verdadeiro batalhador da causa. Dotado das qualidades de "médium" receitista, grangeou, com isso, um vasto círculo de relações e de simpatias, por um grande número de curas apregoadas como devidas àquele se estranho poder".

No livro "Seareiros da Primeira Hora", de Ramiro Gama encontramos muitas informações valiosas sobre Ignácio Bittencourt: "Foi um verdadeiro Apóstolo da Caridade. Médium receitista, inspirado, vidente, clarividente, possibilitou milhares de curas. Foi chamado várias vezes a processo criminal por realizar a medicina ilegal, mas graças à proteção do Alto, foi sempre absolvido, possibilitando que fosse criado, com seus casos, uma jurisprudência favorável ao Espiritismo consolador e curador de corpos e almas. Desencarnou, bastante idoso, e sempre trabalhando pelos pobres e doentes, famintos da luz e do amor, em 18 de fevereiro de 1943. Foi um dos fundadores do Abrigo Tereza de Jesus e fundador, organizador e estimulador de vários Centros Espíritas na Guanabara. Orador inspirado e conhecedor profundo do Espiritismo fez milhares de maravilhosas conferências aqui e pelo Brasil afora. Fundou o ótimo jornal Aurora, que realizou um serviço inestimável no jornalismo espírita."

No precioso trabalho do Dr. José Carlos Moreira Guimarães, publicado em outro livro de Ramiro Gama, "Os Mortos Estão de Pé", novos dados são apresentados, o mais importante dizendo respeito ao escritor e imortal Coelho Neto, também um estudioso da vida de Ignácio Bittencourt. É apresentado texto do artigo "O Bom Samaritano" em que Coelho Neto defende o nosso benfeitor das acusações de exercício ilegal da medicina. Num determinado trecho, escreve o imortal: "E esse homem, que se chama Ignácio Bittencourt - nome constantemente invocado por milhares de sofredores - é intimado a comparecer perante o Tribunal para responder por crimes que, se fossem citados no Código Penal, seriam esplendores, como são as estrelas dentro da noite. E são eles: sarar enfermos, valendo-lhes com a medicina, com a dieta e com o desvelo; mitigar desesperos; reconciliar desavindos, restaurando lares destruídos; promover os meios de legitimar ligações; reconhecer transviados; amparar crianças órfãs; agasalhar anciãos; pregar o amor ao próximo, o respeito e prestígio à Lei, e levantar as corações combalidos com a força suprema da Fé. (...)"

Ignácio Bittencourt e Dona Rosa tiveram 14 filhos, dos quais cinco já haviam falecido. Naquele ano, a 23 de abril, completariam o sexagésimo aniversário de casamento. Entre os filhos, Ignácio Bittencourt Filho foi jornalista e Ismael Bittencourt diretor do Café Globo. O casal morava na Rua Rodrigo de Brito, 24, Botafogo. Hoje não existe mais a sua casa - o local é apenas um estacionamento, mantendo ainda o número 24 na entrada. Já no local onde era o Centro Cáritas, na Rua Voluntário da Pátria, 20, Botafogo, hoje funciona a Homeopatia Nóbrega, com móveis em madeira e vidros antigos - na parede está escrito "Pharmacia". Na sobreloja, onde era localizado o Centro hoje existem escritórios de médicos homeopatas.

Que possamos sempre nos inspirar nos exemplos de Ignácio Bittencourt, de humildade e devotamento ao próximo, para que tenhamos a oportunidade de cumprir os nossos verdadeiros propósitos aqui nesse bendito plano de expiação, que é a Terra.